Quando se fala em mudanças climáticas e pecuária leiteira, é comum imaginar um problema distante, projetado para daqui a várias décadas. No entanto, para quem trabalha diariamente com vacas de leite de alta produção, os efeitos do calor já fazem parte da rotina: queda no consumo, maior frequência respiratória, redução da produção e alterações na composição do leite são alguns dos sinais observados nos períodos mais quentes do ano. A questão que surge é: se o calor já representa um desafio hoje, como poderá ser a produção de leite no Brasil nas próximas décadas?
Para responder a essa pergunta, nós do Núcleo de Pesquisa em Ambiência (NUPEA) da Escola Superior “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) em parceria com a Clínica do Leite analisamos uma ampla base de dados da pecuária leiteira brasileira, composta por mais de 3 milhões de amostras de leite de vacas Holandesas ou com maior grau de sangue de raças taurinas, provenientes de 118 rebanhos distribuídos em 87 municípios e 14 estados brasileiros, abrangendo o período de 2015 a 2025.
Grande parte desses dados representa propriedades com sistemas de produção mais intensivos, incluindo instalações como free stall e compost barn. Portanto, estamos falando, em boa medida, de vacas especializadas e sistemas nos quais já existe maior controle do ambiente e do manejo. Esse ponto é importante porque mostra que o desafio do calor não está restrito aos sistemas extensivos: mesmo propriedades tecnificadas precisam se preparar para um ambiente cada vez mais quente.
O problema não é apenas produzir menos leite
Sabemos que quando uma vaca leiteira está em condições de estresse térmico, uma das primeiras respostas é reduzir o consumo de alimento. Ao mesmo tempo, aumenta o esforço fisiológico para perder calor e manter a temperatura corporal dentro de limites adequados. Na prática, sobra menos energia e nutrientes disponíveis para a produção de leite. Mas existe outro aspecto que merece atenção: o calor também pode alterar aquilo que existe dentro do tanque?
Em nosso estudo, avaliamos os teores de gordura, proteína, sólidos totais e caseína. A análise mostrou que esses componentes não respondem da mesma forma ao aumento da temperatura. Entre eles, a gordura apresentou maior sensibilidade às condições térmicas, enquanto também foram observadas respostas para proteína, sólidos totais e caseína.


